As Mudancas Climáticas Em Alagoas
capa.jpg

MENU

1. Introdução
Há evidências observacionais, teóricas e resultados de modelos de circulação geral da atmosfera, que as condições oceânicas e atmosféricas sobre a Bacia do Atlântico e Pacífico Tropical influenciam fortemente na variabilidade interanual do clima sobre as Américas (Aragão, 1986; Aragão et al., 1994; Hasterath e Heller, 1977; Moura e Shukla, 1981; Hastenrath et al., 1984; Hastenrath e Greischar, 1993; Nobre e Shukla, 1996). Tem-se obtido êxito considerável nas previsões dos eventos do fenômeno “El Nilo” - Oscilação Sul (ENOS), por meio de simulações (modelos) de evolução solidária dos fenômenos físicos da interface oceano - atmosfera. Além disso, o conhecimento sobre o Atlântico tropical (dipolo do Atlântico), conjuntamente com as informações sobre o ENOS, nos permite elaborar uma previsão sobre a precipitação do semi-árido nordestino. Vários modelos de previsão climática para o semi-árido do Nordeste vêm sendo utilizados por diversos organismos regionais, nacionais e internacionais. Por meio desses modelos é possível elaborar prognósticos sobre a qualidade da estação chuvosa do norte semi-árido do Nordeste (período que vai de fevereiro a maio), com antecedência de um a três meses e, para os casos de extremos de pluviosidade, com até seis meses de antecedência. A confiabilidade dessas previsões, pode chegar até a 80%, na dependência de definições acentuadas dos parâmetros envolvidos. Já para a faixa costeira ao leste da região, de climas úmidos e semi-úmidos, ainda não existem modelos operacionais para prognósticos confiáveis. Estudos recentes demonstram a importância de três parâmetros oceano-atmosféricos na definição da estação chuvosa dessa região: a direção dos ventos dominantes à superfície; o posicionamento da Alta do Atlântico Sul; e a temperatura da superfície domar (TSM) no Atlântico tropical. O objetivo deste estudo foi verificar a distribuição de chuvas sobre o setor leste do Nordeste do Brasil (NEB) durante os anos de ocorrência da fase quente do ENOS, para se ter uma idéia de como esses episódios influenciam as regiões da costa leste do NEB.

2 - Dados e metodologia
Neste trabalho utilizou-se totais mensais de precipitação de 39 postos pluviométricos distribuídos espacialmente ao longo do setor leste do NEB, disponíveis no banco de dados da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (SECTMA), os quais foram obtidos junto ao Departamento Nacional de Obras Contra Secas (DNOCS). Estes dados compreendem um período de observação que varia desde o início do século até 1985, com todos os postos apresentando um período superior a 30 anos de dados. Utilizou-se ainda, as variáveis oceânicas e atmosféricas, tais como, Temperatura da Superfície do Mar (TSM), Pressão ao Nível Médio do Mar (PNM) e ventos na superfície, observadas sobre os Oceanos Pacífico e Atlântico Tropical. A variabilidade interanual da precipitação, durante o período chuvoso no setor leste do NEB, foi investigada através do total mensal pluviométrico. Foi obtido um total pluviométrico médio para cada Estado do setor leste do NEB, definido como a soma dos totais pluviométricos mensais individuais divididos pelo número de postos pluviométricos com informação no referido ano. Somente os dados sazonais de março a julho foram utilizados. Foram também investigadas algumas características da variabilidade de prazo curto (5 anos) da precipitação no leste do NEB, através de anomalias normalizadas pelo respectivo desvio padrão, calculadas para o período de MAMJJ, para os Estados do setor leste do NEB. Os episódios ENOS foram selecionados dentro do período compreendido entre 1912/1985. Foram escolhidos 17 casos considerados como episódios ENOS de acordo com asmusson e Carpenter (1983): 1914, 1918, 1923, 1925, 1930, 1932, 1939,. 1941, 1951, 1953, 1957, 1965, 196, 1971, 1976, 1982, 1983. Rasmusson e Carpenter (1983) observaram que, em um grande número de ENO documentados, o ciclo de vida desses fenômenos dura em torno de 18 meses, embora tenha sido verificados ENOS com período vital mais curto (como por exemplo o de 1986). Segundo Ropelewsk Halpert (1986), os ENOS são divididos em três períodos: ano (-), fase de maturação; ano (0), famadura; e ano (+) onde os ENOS geralmente encontram-se em fase de dissipação. Por exemplo, para ENOS 1976 o ano (-) equivaleu ao período de julho a dezembro de 1975, o ano (0) aos doze meses 1976 e o ano +) de janeiro a julho de 1977.

3 – Resultados e discussão
As figuras de 1.a a 1.f mostram a variabilidade da precipitação do setor leste do NEB. Dessas figuras, percebe-se que nos estados de Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco 71% dos anos que se configurou o ENOS, houveram recipitações abaixo das médias climatológicas. Já para os Estados de Alagoas, Sergipe e Bahia foram 59% dos anos que tiveram redução de precipitação relacionada com os eventos ENOS. No início do Século, o setor leste do Rio Grande do Norte a Pernambuco (Figs. 1a-1c) tiveram precipitações pluviométricas acima da média, na maioria dos anos. No período de 1951 a 1963 houveram chuvas abaixo da média (com desvio de ≅-1σ ), concomitante com eventos ENOS e anomalias negativas no TSM no Atlântico Sul. No período de 1964 a 1977 houveram chuvas acima da média na maioria dos anos, e não houve um impacto forte dos fenômenos ENOS e do Dipolo (com anomalias negativas no Atlântico Sul). Para o Período de 1978 a 1983 houveram chuvas abaixo da média, com impacto do ENOS apenas nos últimos dois anos, e o Dipolo (com anomalias positivas no Atlântico) não teve influência. O Setor Leste de Alagoas a Bahia (Fig. 1d a 1f)viveram chuvas acima da média no início do século, exceto Sergipe. No período de 1933 a 1951 os Estados Alagoas e Bahia tiveram chuvas acima e em torno da média, respectivamente. Já o Estado de Sergipe esteve abaixo da média climatológica. No período de 1952 a 1985 o Estado da Bahia ficou em torno da média, exceto para os anos de 76, 77, 79 e 80.Nesses quatros anos ocorreram episódio ENOS, contudo havia anomalia negativa de TSM no Atlântico Sul. Para os Estado de Alagoas e Sergipe as chuvas ficaram acima da media para a maioria dos anos, exceto para os anos de 55 e 56, 58 e 59, 70, 71 e 72, e, 82 e 83. Nos anos 55/56, 70/71 e 82/83 houve o impacto de eventos ENOS. Para os anos 55/56 teve o impacto do Dipolo (com anomalias negativas no Atlântico Sul).

4 – Conclusão
Este trabalho investigou a variabilidade da precipitação em escala de tempo interanual, durante o período chuvoso (março a julho) sobre o setor leste do NEB, ao longo deste século, em associação ao ENOS e ao Dipolo. No início do século houve chuvas acima da média para todos Estados aqui analisados, exceto Sergipe. As precipitações pluviométricas da Paraíba e Pernambuco ficaram em torno da média climatológica (com desvios normalizados dentro dos limites de ±1σ). A maioria dos Estados sofreram influência do ENOS e do Dipolo, com a Bahia e Sergipe apresentando o menor impacto. Uma avaliação sinótica da circulação troposférica sobre o Oceano Atlântico Sul e Oceano Pacífico, subsidiada com maiores informações, é fundamental para uma melhor monitoramento da precipitação do setor leste do NEB.

[[image

002.JPG 003.JPG]]

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License